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Ansiedade

“É só parar de pensar nisso”: como a ansiedade acaba sendo banalizada

30 de setembro de 2026 · 5 min de leitura · por Ana Carolina Biondo

Livros em tons verde-sálvia e terracota ao lado de um vaso com ramo verde

Uma mulher tenta explicar que está preocupada, que não consegue descansar e que a cabeça continua ocupada mesmo depois de terminar o trabalho. A resposta vem rápido: “Você pensa demais. É só parar de pensar nisso.”

Quem diz pode querer ajudar. Mas, para quem está sofrendo, esse conselho pode soar como uma cobrança: se a solução é tão simples, por que eu não consigo?

Tenho visto mulheres que, além de lidar com a ansiedade, passam a questionar se têm o direito de estar mal. Continuam cumprindo seus compromissos e concluem que o sofrimento não deve ser tão importante. Ou olham para as coisas boas da própria vida e pensam: “Eu não deveria me sentir assim.”

Quando o sofrimento precisa de justificativa

“Mas está tudo bem na tua vida.”

Essa frase parte da ideia de que precisamos encontrar um problema visível para explicar a ansiedade. Só que ela pode aparecer diante da possibilidade de perder algo, cometer um erro ou não conseguir lidar com uma situação futura. Não é necessário que uma dificuldade já tenha acontecido para que a pessoa se sinta ameaçada.

Uma mulher pode estar em um momento estável e passar boa parte do dia tentando garantir que essa estabilidade não seja perdida. Para quem está de fora, não existe motivo para preocupação. Para ela, baixar a guarda parece arriscado.

Isso não significa que toda preocupação seja um transtorno. Significa que olhar apenas para as circunstâncias externas não é suficiente para compreender o sofrimento de alguém.

“Tem gente passando por coisa pior”

Comparar problemas não explica o que acontece com aquela pessoa nem oferece uma forma de lidar com isso.

Ela pode reconhecer que outras pessoas enfrentam situações difíceis e continuar ansiosa. A comparação ainda pode acrescentar culpa: além de sofrer, sente que está sendo ingrata por não conseguir ficar bem.

Quando esse tipo de resposta se repete, falar sobre a ansiedade pode começar a parecer inútil. A pessoa evita o assunto porque espera ser julgada ou precisar se justificar novamente. O silêncio que vem depois pode ser confundido com melhora.

Por que “parar de pensar” parece tão difícil?

Para algumas mulheres, continuar pensando no assunto parece uma forma de se preparar. Elas acreditam que, se analisarem mais um pouco, conseguirão prever o problema e encontrar uma resposta que traga tranquilidade.

O problema é que nem toda dúvida tem uma resposta disponível. Mesmo depois de chegar a uma conclusão, pode surgir outra possibilidade: “Mas e se acontecer de outro jeito?”

A preocupação passa a funcionar como uma tentativa de alcançar certeza. Por isso, mandar a pessoa parar deixa de fora uma parte importante do funcionamento: o que ela teme que aconteça se deixar aquela questão em aberto?

Dar conta de tudo não significa estar bem

A ansiedade nem sempre provoca uma interrupção evidente na rotina. A pessoa pode continuar trabalhando enquanto enfrenta dificuldade para relaxar, tensão muscular ou problemas de sono. Esses sintomas fazem parte dos quadros que precisam ser avaliados quando são persistentes e provocam sofrimento.

Também importa observar o custo de continuar funcionando. Se descansar exige terminar mentalmente todos os problemas possíveis, o tempo livre deixa de ser vivido como descanso.

Como oferecer ajuda sem minimizar

Uma resposta pode começar com interesse pelo que a pessoa está vivendo: “Como isso está te afetando?” Essa pergunta abre espaço para compreender, em vez de decidir antecipadamente que o problema é pequeno.

Levar o sofrimento a sério não exige concordar que todos os cenários temidos vão acontecer. É possível reconhecer que a pessoa está angustiada sem tentar garantir que nada dará errado.

Na terapia, esse cuidado se combina com investigação e mudança. Olhamos para a forma como a mulher interpreta as situações e para o que faz quando sente que precisa ter certeza. Trabalhamos outras respostas para que ela consiga lidar com dúvidas sem passar o dia tentando resolvê-las mentalmente.

Ela não precisa provar que chegou ao limite para que o sofrimento mereça atenção. Se a ansiedade está ocupando um espaço que gostaria de dedicar à própria vida, isso já merece ser compreendido.

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